Dra. Susana Carvalho conta sua experiência como bolsista nos Estados Unidos e as idéias que trouxe para o Brasil.
Bem no começo de maio de 2010, fui a Los Angeles, nos Estados Unidos, graças a uma bolsa de estudos do Programa de Cooperação Internacional - Terceiro Setor, da Secretaria de Justiça e do Desenvolvimento Social do Rio Grande do Sul. A bolsa foi conquistada mediante a apresentação de um projeto, no qual a minha experiência de voluntária como dentista foi fundamental. O objetivo da bolsa seria a realização de visitas técnicas que oportunizassem o conhecimento de novas tecnologias sociais em instituições de referência.
Durante a viagem pretendia observar e aprender coisas novas sobre o atendimento ao paciente portador de necessidades especiais e, voltando à minha terra, multiplicar meus novos conhecimentos. Particularmente, buscava a parte multidisciplinar da odontologia, ou seja: o exercício da minha profissão integrada a áreas como fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, psicopedagogia . Queria observar como se realizava o atendimento oferecido a população, particularmente aos portadores de necessidades especiais.
Entre os lugares que visitei, três foram os que me mais me impressionaram: o Children’s Hospital, a Universidade do Sul da Califórnia e o Rancho Los Amigos.
Nas duas primeiras instituições pude observar uma certa similaridade nos procedimentos. Nos Estados Unidos o uso do óxido nitroso é prática corriqueira em qualquer procedimento odontológico, como facilitador do atendimento. O que não acontece no Brasil. Na Universidade fiz prática de observação em atividades dos alunos do último ano da faculdade de Odontologia.
Já no Children’s Hospital pude permanecer mais tempo. Lá encontrei a multidisciplinariedade que buscava. O terceiro andar do hospital era totalmente utilizado para o atendimento odontológico para todo o tipo de criança. Lá não há atendimento gratuito, apenas através de convênios. Uma vez por semana a equipe de profissionais (dentistas, fonoaudiólogos, etc) se reúne e cada caso de criança especial é analisado.
Nos Estados Unidos não há Instituições como a nossa Casa do Menino Jesus de Praga. Normalmente a criança especial permanece com sua família ou é adotada. Quando necessita de atendimento é levada à Instituições como as que visitei.
Como eu estava apenas para observar, não tive oportunidade de intervir em nenhum procedimento. Mas, conversando com os colegas americanos, eles se surpreenderam com o trabalho de prevenção bucal realizado no Brasil. No meu caso, impressionaram-se quando informei que, na CMJP, realizo um trabalho preventivo atendendo cada criança a cada três meses, se não houver alguma intercorrência; e também com o fato de nunca ter tido necessidade de usar anestesia geral (comum nos Estados Unidos) com os pacientes da Casa, mesmo quando eram menores.
Acharam interessantíssimo o uso do meu “caninho”! Trata-se de um pequeno tubo de PVC de meia polegada usado na construção civil. Introduzindo meu dedo no “caninho” ele é colocado entre os dentes da criança que assim mantém a boquinha aberta. Esta idéia evita o risco de que ela morda meu dedo e facilita a realização do procedimento. A técnica é simples e usada também para auxiliar a escovação das crianças. O material é perfeitamente esterilizável e barato. Na terra da tecnologia, os americanos se encantaram com minha singular idéia do “caninho”! Confesso que desejei mostrar a eles como atendo nossas crianças, de que maneira fui aos poucos adaptando o que sabia às características de cada uma delas. Mas não poderia fazê-lo, pois eu lá estava na condição de aprendiz e observadora.
O lugar que mais me impressionou foi o Rancho Los Amigos, a leste de Los Angeles. Um espaço especial para pacientes especiais de todas as idades. Lá funciona um complexo multidisciplinar que promove o atendimento em muitas áreas médicas, como ortopedia, neurologia, endocrinologia, gastroenterologia, realizando até mesmo cirurgias.
Fui a única bolsista do grupo, que viajou aos Estados Unidos em busca apenas de CONHECIMENTO . O Governo me concedeu esta bolsa, confiou em mim e eu voltei para o Brasil sonhando com algo como o Rancho Los Amigos em Porto Alegre. Retornei desejosa de plantar por aqui a ”sementinha” trazida do Rancho; um lugar onde as pessoas que prestam atendimento estão preparadas para acolher e cuidar não só o paciente especial em toda a sua complexidade, mas seu familiar. Gostei muito de conhecer o espaço porque, embora se pense em inclusão para o paciente especial, ele precisa receber um atendimento especializado e diferenciado.
Sou muito grata pela oportunidade que me foi dada. Foi a primeira vez que me afastei de minha família. Em compensação, fui muito bem recebida em todas as organizações que visitei. Constatei que os profissionais americanos atendem os pacientes especiais de modo diferente daqui (a começar pela utilização do óxido nitroso). E que o atendimento é muito organizado e humanizado. Apesar, é claro, de não ser tão caloroso como aqui!
Permaneço sonhando com um “Rancho Los Amigos” atendendo portadores de necessidades especiais em todas as áreas médicas e com qualidade. Aqui, na minha terra.
Dra. Susana Maria Rossi de Carvalho e Silva é dentista voluntária no Educandário São João Batista, atende as crianças da Escola Municipal Tristão Sucupira Vianna, na Restinga e faz parte do projeto Adotei um Sorriso da Fundação ABRINQ. Atende as crianças da CMJP, voluntária e carinhosamente, há 14 anos.
Texto originalmente publicado no site: http://www.casadomenino.org.br/

Nenhum comentário:
Postar um comentário